sábado, 19 de outubro de 2013

Esconder o racismo objetiva mantê-lo hegemônico

Esconder o racismo objetiva mantê-lo hegemônico

Flávio Passos*

"Racismo aqui existe, sociedade não admite. 
Existe preconceito, sociedade vê direito! 
Elite branca se olhe no espelho! 
Exigimos justiça! Exigimos respeito!" 
(Mestre Chimbinha e Diego Guerreiro. "Racismo Aqui Existe", 2006). 


Até hoje ninguém me convenceu do porque, nos últimos anos, coincidentemente, tem-se adotado - não obstante toda campanha anti-estrangeirismos na linguagem - o termo "bullying" em substituição, não apenas semântica, mas principalmente, temática, de termos muito mais coerentes com a nossa realidade de violência racial, quais sejam, preconceito, discriminação e racismo. 

Tivesse a literatura, principalmente na área pedagógica, dado conta de ressignificar o termo dialogando com a nossa plural e complexa realidade brasileira, principalmente no que tange as questões dos preconceitos, poderíamos acreditar na não intencionalidade de se invisibilizar a questão racial em tempos de ações afirmativas, políticas de cotas nas universidades e no serviço público, conquistas de marcos legais para a cidadania dos povos quilombolas, indígenas e ciganos, como também para as religiões de matrizes africanas. 
Maurício Pestana

Paradoxalmente, quando se fala no tal do "buuuuu-lllllly-iiiing", a educação das relações étnico-raciais é simplesmente ignorada, voluntariamente esquecida. Aliás, definitivamente, o sentido de tanta importância ao bullying é que ele não é "problemático". Levantar sua bandeira nem causa "mau estar" em ambientes eivados de racismo e preconceitos diversos. É bonito. Tá na moda falar e combater o bullying. No entanto, olhando com mais atenção, ele esvazia o problema ao tratar a prática do preconceito racial, não como crime, mas como um mau comportamento. Demoramos muito pra conseguir a criminalização da prática do racismo pra agora vê-lo transformado em mero "bullying". 

Não há uma tradução exata para o termo, talvez "intimidação" seja a mais fiel. Entretanto, um caráter implícito ao significado do termo e do que a prática dele significa, a repetitividade da intimidação, seria mais um motivo para não se ter havido o esvaziamento da questão racial na educação. A emergência da temática do "bullying" aponta para um contexto de intolerâncias diversas e abrangentes. O outro, por não se enquadrar em um modelo padrão, predominante, passa a ser alvo de agressões e violências físicas ou psicológicas. Porém, no Brasil, o racismo é uma prática cotidiana mais que repetitiva. Este se reinventa, não sendo suprimido, nem com a mobilidade social, nem com o pertencimento ideológico, nem com as conquistas de cidadania por parte de grupos historicamente alijados. E, diferente do bullying, não é uma agressão entre pares, é uma agressão - proporcionalmente mais forte - entre diferentes, porque presumidamente também desiguais.

A ênfase no "bullying" presta o desserviço de apagar a cor e a classe de nosso racismo sócio-racial, nada cordial. É a busca incansável do pensamento hegemônico de desconstruir a memória africana e negra no Brasil. E é como que se a classe média quisesse dizer: "ó, nós também sofremos, e muito, com preconceitos de toda sorte". E, no Brasil pós 10.639/03 e pós-Cotas, a mídia burguesa - de forma militante, a Globo (Jornal e TV), mas também as revistas de grande circulação como a Veja, a Folha e o Estadão -, ao mesmo tempo que impõe um silêncio quanto ao avanço que são as políticas de ações afirmativas, incute essa nova expressão no cotidiano social tentando "naturalizar" o seu uso para, aos poucos, introjetá-lo no ambiente escolar, pelas janelas da tela e das redes sociais. Primeiro, um dos diretores do Jornal Nacional, Ali Kamel, quis convencer não sei a quem de que "Não somos racistas". Depois, o programa "Altas Horas", entre 2009 e 2011, bateu na tecla "anti-bullying". Agora, a temática está disseminada na grade da emissora, especialmente em programas como o Globo Repórter de hoje que veio com o tema em letras garrafais no título. Só alguém que não tenha sofrido ou que não sofra cotidianamente o racismo, o preconceito e a discriminação raciais, cai nessa balela. 

Entretanto, após 10 anos da 10.639/03, a educação brasileira tem resistido a essas manipulações e mantém na formação de seus profissionais a densidade da reflexão sobre as diversas formas de racismo presentes em diversos setores da sociedade, especialmente na escola. O racismo, reinventado, se reconfigura nas suas dimensões estrutural, ambiental, religiosa, territorial, cultural, institucional, midiática, linguística... para desembocar no relacional. E precisa ser combatido em cada uma delas com estratégias específicas e eficazes de superação que pressupõe uma desconstrução do racismo, do pensamento hegemônico, da branquitude. E isso só será possível com a educação plural. Não será o "bullying étnico" que dará conta de contemplar a radicalidade do nosso racismo brasileiro, pois o problema não está nas agressões entre adolescentes na sala de aula. 

O problema do racismo brasileiro se confunde com os quatro séculos de escravidão africana que está na origem desse país e com o projeto de nação que se descortina no Pós-Abolição, quando negros passam a ser um "problema" para a elite e para o Estado. Segundo a professora Josildeth Gomes Consorte, no texto "A questão do negro: velhos e novos desafios" (1991), “a definição do lugar do negro na sociedade brasileira sempre se constituiu um problema para o Estado, para as elites e para o próprio povo” (CONSORTE, 1991, p. 87). 

E, nessa última década, mesmo com todas as mudanças ocorridas na economia e no acesso dos mais pobres a bens e serviços antes restritos a uma pequena parcela da população, a população negra está ainda mais exposta à violência e à morte. Os indicadores críticos continuam apontando - via IBGE, via IPEA, via o Mapa da Violência, dentre outros - que o negro morre mais cedo e de forma violenta. Os movimentos sociais negros históricos já apontavam pra essa realidade há mais de três décadas. Os últimos dados da Pesquisa "Participação, Democracia e Racismo?", do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas) publicados nesta quinta, 17, revelam que 70% das mortes violentas de jovens entre 15 e 29 anos são de negros. Ou seja, ser negro e ser negra no Brasil aí está no nível da sobrevivência, da luta por manter-se vivo, muitas vezes, tendo como algoz o próprio Estado, ao não garantir as políticas básicas de saúde, educação e liberdade de existir e de se manifestar. A política mata, e também o mau atendimento médico, e também a negligência na educação mata ao não garantir a implementação de uma lei que obriga a se trabalhar a educação das relações étnico-raciais e a inclusão dos conteúdos de história e cultura africana e afro-brasileiras no currículo escolar brasileiro. 

Como todas as demais formas de preconceito, o racismo também não cabe em uma sociedade que se quer democrática e desenvolvida. No entanto, é preciso combatê-lo e não diminuir a gravidade da sua violência, nivelando-a com outras práticas ou, no caso do bullying, diluindo-a em uma gama de outros tipos de agressões. Como bem disse a ex-ativista do Partido Panteras Negras, Ericka Huggins, "esconder o racismo não o faz ir embora". Ou seja, se ao falar de bullying sempre se ausenta a questão racial, sempre se invisibiliza a problemática da intolerância religiosa que existe nas escolas, ou a hostilização de colegas, funcionários e professores contra a presença de cotistas pobres, negros, indígenas ou quilombolas nos espaços universitários, isso não por acaso. Há uma intencionalidade movida pelo próprio racismo. 

Escamotear ou camuflar nossa prática social mais desumanizadora não resolverá nossos problemas, apenas adiará a construção de uma sociedade que respeite a pluralidade, inclusive, a racial. Esconder o racismo objetiva mantê-lo hegemônico, enquanto estruturador de uma sociedade racialmente desigual.

"Tristes, porque esquizofrênicos, trópicos!" 

*Flávio Passos, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, professor de Filosofia e Sociologia no Colégio Carlos Santana, em Belo Campo, BA, e assessor técnico de Promoção da Igualdade Racial na Prefeitura Vitória Da Conquista. E-mail do autor: br2_ebano@yahoo.com.br