quinta-feira, 18 de julho de 2013

Caso Trayvon Martin deflagra debate racial nos EUA

Americanos protestam contra a absolvição de George Zimmerman em Los Angeles, 14 de julho de 2013 (AFP-Robyn Beck)

A absolvição do vigia branco George Zimmerman, acusado de matar o jovem negro Trayvon Marin na Flórida, reacendeu o estigma racial nos Estados Unidos, levando o presidente Barack Obama a pedir calma à população.
 
Milhares de pessoas foram às ruas em Nova York, Los Angeles, Chicago e Atlanta, entre outras cidades, para protestar contra o polêmico veredicto alcançado por um júri composto por seis mulheres (cinco brancas e uma de origem hispânica), que declarou Zimmerman, de 29, inocente da morte de Trayvon Martin, de 17.
 
Outros protestos estão marcados para sábado em 100 cidades dos Estados Unidos. "Haverá manifestações neste sábado em cem cidadese diante de prédios federais, para pressionar o governo e defender nossos direitos cívicos", anunciou Al Sharpton, líder da Rede de Ação Nacional (National Action Network, NAN), organização de defesa dos direitos cívicos.
Ele se declarou confiante de que o governo federal vá rever o caso.

 
Pelo menos seis pessoas foram detidas em Los Angeles na madrugada desta segunda, quando forças policiais dispersaram uma "concentração ilegal" que acontecia em Hollywood, perto do prédio da rede CNN. Outras 15 pessoas foram presas em Nova York, a maioria por desordens, segundo a Polícia. Todas foram liberadas depois.
 
O julgamento que terminou no sábado, em Sanford, centro da Flórida, dividiu o país entre os que acreditam que Zimmerman, um americano de mãe peruana, agiu em legítima defesa e aqueles que pensam que o vigia foi motivado por preconceito racial contra Martin. Zimmerman foi acusado de perseguir e atirar em Martin, que estava desarmado, durante uma briga entre os dois na noite de 26 de fevereiro de 2012.
 
"É uma vergonha que, em 2013, tenhamos um veredicto que legitima o assassinato de um negro porque se aceita o uso das armas de um civil contra outro", disse à AFP Amanda Hooper, uma jovem estudante de Nova York que estava de visita a Sanford e acompanhou as manifestações na frente do tribunal.
 
No domingo, após a explosão dos protestos, o presidente Obama pediu calma.
"Sei que esse caso provocou intensas paixões. No dia seguinte ao veredicto, sei que essas paixões podem se intensificar. Mas somos um estado de direito, e um júri falou", afirmou Obama, em nota à imprensa.

"Supremacia branca"
 
No ano passado, o caso já havia provocado manifestações em massa em várias cidades do país, que fizeram o presidente desabafar: "Se tivesse tido um filho, ele seria parecido com Trayvon". Na época, Obama convocou um debate sobre o racismo e a lei de armas da Flórida, que ampara a defesa pessoal.
 
Em contrapartida, o veredicto de sábado foi aplaudido por defensores das armas, por todos aqueles que apoiam a lei conhecida como "Stand Your Ground" ("Defenda sua posição", em tradução livre). Essa lei permite o uso de armas por parte de quem se sentir ameaçado de morte.
 
Até o momento, os moradores da Flórida reagiram com calma. No sermão de domingo, as igrejas incluíram mensagens de paz pelo veredicto, além de pedir que a luta por justiça seja travada nas instâncias adequadas.
 
Valerie Houston, uma influente pastora da igreja Allen Chapel AME em Goldsboro, o bairro negro de Sanford, citou o líder Martin Luther King em seu sermão de domingo, para lembrar que "a violência (em resposta) à violência apenas traz ódio". Ainda assim Valeria declarou que, com a decisão judicial, "o dia a dia do meu povo ainda está escravizado pela sociedade da supremacia branca".
 
Os pais de Trayvon Martin, ausentes durante o veredicto, pediram manifestações pacíficas, citando Martin Luther King e a Bíblia.

"Dúvida razoável"
 
As juradas que absolveram Zimmerman da acusação de assassinato em segundo grau - com a possibilidade de pena de prisão perpétua - e homicídio culposo - pena máxima de 30 anos de prisão - não explicaram as razões de seu veredicto, porque isso implicaria revelar sua identidade publicamente. O tribunal respeitou a escolha das integrantes do júri de manter o anonimato.
 
A decisão das juradas se baseou nas 27 páginas de instrução entregues pela juíza Debra Nelson, que incluíam duas seções com uma opção para declarar o réu inocente: uso justificado de força letal e dúvida razoável.
 
Antes do início das deliberações, na sexta-feira, a juíza disse ao júri que, segundo a lei da Flórida,"o homicídio de um ser humano é justificável e lícito, se for necessário, quando se resiste a uma tentativa de assassinato, ou se comete um crime grave em relação a George Zimmerman". A Flórida é o estado com maior número de pessoas armadas nos Estados Unidos.
 
Durante quase três semanas, as seis integrantes do júri ouviram dezenas de depoimentos que podem ter criado uma "dúvida razoável".
 
"George Zimmerman não é culpado, se existe uma 'dúvida razoável' de que agiu em legítima defesa", disse o advogado Mark O'Mara às seis integrantes do júri na sexta-feira, antes que começassem a deliberar. Ele insistiu nessa tese, quando comemorou o veredicto no sábado à noite.

Morte "trágica e desnecessária"
 
No domingo, o Departamento de Justiça lembrou que há um ano continua aberta uma investigação federal sobre o caso e que pretende rever a possibilidade de uma ação civil.
Já o procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, lamentou a "trágica, desnecessária" morte de Martin.
 
"Independentemente da determinação legal que foi adotada, acho que essa tragédia oferece uma nova oportunidade para a nossa nação falar honestamente sobre os problemas complicados e emotivos que esse caso apresentou", afirmou.
 
O governo deixou claro que manterá distância da polêmica e que Barack Obama não vai interferir na investigação federal sobre a morte de Trayvon Martin, declarou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.
 
"Essa é uma decisão tomada pelo Departamento da Justiça, pelos promotores com experiência", afirmou Carney, em sua conversa diária com a imprensa, acrescentando que "esse não é um caso, no qual o presidente esteja envolvido".