sábado, 19 de março de 2011

Visita de Obama: Dilma sugere construção entre iguais e fim da "retórica vazia"

Em clima protocolar, hoje, 19 de março, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou ao Palácio do Planalto, em Brasília, nessa que é a sua primeira visita à América Latina. Com cerca de 30 minutos de atraso, Obama cumprimentou a presidente Dilma Rousseff e seus ministros, dentre eles o ministro da fazenda Guido Mantega e
das relações exteriores, Antônio Patriota.

Obama é o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Em 2008, durante o processo eleitoral, ativistas negros de todo o mundo manifestaram apoio a sua candidatura que representou um marco para o mundo, sobretudo, nos EUA, um país marcado por forte violência racial, em que negros sofriam ataques de grupos extremistas e a própria lei promovia segregação formal, o que se seguiu até a década de sessenta, quando da explosão dos movimentos civis liderados por líderes como Martin Luther King e Rosa Parks.

Distante da conquista racial alcançada pelos Estados Unidos por ter um governante negro, o Brasil, que tem a população de pelo menos 45% de afrodescendentes, apresentou ao presidente Obama um Brasil diferente da realidade das ruas. A cerimônia aparentemente não contou com a presença dos ministros negros do governo Dilma, como Orlando Silva (Esporte) e Luiza Bairros (Seppir), reforçando a falta de visibilidade dos personagens negros na política nacional, o que comprova que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para ser de fato uma nação que respeita a diversidade racial.

Chamou à atenção também na cerimônia de chegada de Obama, as apresentações culturais exibidas à primeira-dama estadunidense, Michele Obama, como os grupos Raízes do Brasil, de capoeira, e a banda percussiva de mulheres, Batalá, desconhecidos para o público brasileiro. Esperava-se, por exemplo, grupos tradicionais da cultura negra brasileira, como, por exemplo, o grupo Olodum, Ilê Aiyê ou a banda Didá, primeira banda percussiva de mulheres do Brasil, criada pelo saudoso Neguinho do Samba, invetor do Samba-Reggae.



Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República/Divulgação
Discursos

Em discurso no Planalto, a presidente Dilma disse estar honrada em receber Obama e ressaltou o histórico momento, no qual a primeira mulher presidente do Brasil se encontra com o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Lembrou do ex-presidente Lula, classificando-o como "um homem do povo", que proporcionou cidadania para os brasileiros, mulheres e homens que viviam à margem da sociedade.

Dilma disse, também, que Obama encontrou o país "no momento mais vibrante" e que o Brasil seria "um dos mais dinâmicos mercados do mundo". Frisou, entretanto, que ainda é preciso tratar das contradições na relação entre os dois países, como os "desequilíbrios econômicos", criticando as ações protecionistas dos EUA.

A presidente pontuou em seu discurso que, embora tardias, diante da crise econômica mundial, as reformas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) são necessárias e importantes. Já em relação a Organização das Nações Unidas (ONU) comentou que ainda existe a possibilidade e oportunidades de antecipação nas reformas, sugerindo o interesse do Brasil em ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança, a mais importante instância da organização global.

Reforçando a ideia da participação brasileira no Conselho de Segurança da ONU, Dilma remeteu-se ao histórico brasileiro de diálogo e tolerância. Segundo a presidente, "o Brasil tem o compromisso com a paz, a democracia e o consenso", lembrando a relação pacífica do país com os seus vizinhos de fronteiras.
Na sequência, argumentou que no passado existia uma "retórica vazia" na relação entre o Brasil e os Estados Unidos e que espera, nesta nova fase de aproximação, "uma construção entre iguais, por mais distintos que sejam esses países".

Apesar de ressaltar o Brasil como um país multiétnico, no qual convivem distintas e ricas culturas, a presidente Dilma não citou, em seu discurso, o Plano Brasil-Estados Unidos para a Promoção da Igualdade Étnica e Racial (JAPER), acordo diplomático assinado em 2008 pelas duas nações, que prevê uma atuação conjunta dos governos nas áreas de educação, segurança, saúde, cultura e comunicação e justiça ambiental, isso no ano internacional dos afrodescendentes, criado pela ONU. Da mesma forma, no discurso de Obama não houve menção ao Plano que é considerado estratégico para a diplomacia dos Estados Unidos no Brasil. Há expectativa que na passagem de Obama pelo Rio de Janeiro o tema seja mencionado.

Obama, em seu discurso, agradeceu a presente Dilma pelo fortalecimento das alianças nas relações entre Estados Unidos e Brasil, referenciou a nação brasileira como a segunda economia das Américas, citando a criação do G-20, grupo das vinte maiores potências mundiais, o que permite um maior protagonismo do Brasil.

O presidente estadunidense falou dos acordos entre os dois países, que incluem dialógos financeiros, expansão da transferência tecnológica, enalteceu o status do Brasil no desenvolvimento de energia limpa e como o país é estratégico no fornecimento de petróleo e na transferência tecnológica dos biocombustíveis. Na área militar, enfatizou a importante parceira do Brasil no tratamento da crise do Haiti, no combate ao contrabando de armas nucleares, entre outros temas. Obama não deixou de falar sobre a crise na Líbia, que está sendo discutida pela ONU, dizendo que há urgência de se fazer cumprir os direitos humanos naquele país.

Diferentemente da visita de Obama ao Brasil, que está em destaque na mídia nacional, o principal assunto dos Estados Unidos é a crise política na Líbia. Na opinião de setores da mídia nos Estados Unidos, neste momento Obama deveria estar em solo estadunidense e direcionar todos os esforços para resolver o grave problema do país africano. Nessas análises, os Estados Unidos tem perdido espaço de liderança para países como França e Reino Unido.

Paulo Rogério e Keila Costa - Correio Nagô –
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