quarta-feira, 27 de março de 2013

Modelos desfilam na Av. Paulista em protesto contra Ronaldo Fraga


Modelos desfilam na Av. Paulista em protesto contra Ronaldo Fraga: estilista usou palha de aço na cabeça de modelos.

Modelos negras desfilam em protesto nesta segunda-feira (25), na Avenida Paulista em São Paulo (SP). O protesto foi organizado pela agência de modelos negros HDA Models, contra o desfile do estilista Ronaldo Fraga no Fashion Week que usou modelos brancas  (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo )

Modelos negras desfilam na Avenida Paulista  (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo )

Modelos desfilaram nesta segunda-feira (25), na Avenida Paulista, em São Paulo, em protesto contra o estilista Ronaldo Fraga. Na semana passada, ele usou perucas e apliques de palha de aço na cabeça de modelos em desfile na São Paulo Fashion Week.
 
Nesta segunda, durante o protesto, as modelos desfilaram na calçada da Avenida Paulista. O evento foi organizado por uma agência de modelos negras.
Elas usaram a palha de aço como tecido para as roupas que usavam. Na cabeça, usaram pedaços de panos coloridos.
 
O grupo contesta as perucas idealizadas por Fraga em parceria com o maquiador Marcos Costa. Elas se tornaram alvo de um debate sobre racismo, que ganhou dimensão nas redes sociais. Em entrevista na ocasião, Fraga disse que sua proposta não foi entendida. “Quando acordei e vem essa acusação de racismo, eu pensei: gente, o que aconteceu, que mundo é esse?”

O estilista negou que tenha ficado frustrado, mas afirma que jamais pensou na associação da palha de aço com a questão racial. O material remete às antenas dos aparelhos de televisão, que antigamente recebiam bolinhas de bombril em suas pontas para melhorar a imagem da transmissão dos jogos de futebol.

Modelos posam para foto em frente ao Masp (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo)
Modelos posam para foto em frente ao Masp (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo)
 
 

 

Racismo no Futebol

Balotelli acredita que pouco está sendo feito para acabar com o racismo no futebol  


Mario Balotelli (Reprodução/Site
Mario Balotelli

Desde que voltou à Itália, o atacante do Milan, Mario Balotelli, vê o seu nome envolvido em problemas com questões raciais. E, segundo o próprio jogador, as autoridades responsáveis estão permissivas com os atos ofensivos. A matéria está no site do jornal The Sun desta segunda-feira (25).
 
Os “ultras” da Internazionale, seu ex-clube, fizeram cânticos racistas citando-o em uma partida do campeonato italiano contra o Chievo – houve punição e multa de R$ 34 mil aos neroazzurri. E no clássico entre Milan e Inter deste ano em que o italiano jogou, os interistas também direcionaram ofensas a Super Mario que, incrivelmente, foi multado, pois respondeu aos insultos com um “gesto vulgar” e teve que pagar mais de R$ 22 mil – já a Inter ficou com um prejuízo de R$ 112 mil por causa de sua torcida.
 
“Isso (racismo) me irrita, me deixa nervoso e eu não gosto dessas coisas. Temos feito pouco progresso nesta questão”, desabafou Balotelli.
 
Seu colega de clube, o ganês Kevin-Prince Boateng, foi discriminado racialmente durante uma partida amistosa de pré-temporada do Milan em janeiro passado e deixou o campo. Para Balo, atitudes assim precisam ser vistas pelas autoridades do futebol.
 
“Eu concordo com ele”, respondeu, sobre Boateng ter abandonado a partida. Na época, Mario ainda acertava sua saída do Manchester City para o San Siro.
 
“Para parar o racismo, nós todos precisamos contribuir juntos”, salientou.

Fonte:http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/esporte/2013/03/25/322244-balotelli-acredita-que-pouco-esta-sendo-feito-para-acabar-com-o-racismo-no-futebol

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Apenas um prefeito de capital eleito em 2012 é negro


Akemi Nitahara - Repórter da Agência Brasileira

 Rio de Janeiro – João Alves Filho, do Democratas, é o único negro entre os prefeitos de capital que tomaram posse no dia 1º de janeiro. Ele volta ao cargo em Aracaju (SE), depois de ter sido prefeito da cidade na década de 1970 e governador do estado em duas ocasiões.
 
O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcelo Paixão, coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Sociais (Laeser) do Instituto de Economia (IE) lembra que, no Brasil, poucos negros exercem funções de destaque. Essa mudança de paradigma já ocorreu nos Estados Unidos, que reelegeram um negro para a presidência.
 
“O Barack Obama é produto de uma coisa que mudou nos Estados Unidos, que foi o acesso da população negra aos espaços sociais mais prestigiados. A política eu não diria que foi [a área] mais privilegiada dessa mudança não, mas [isso se observa] no acesso às universidades, a grandes empresas, na mídia, há uma visibilidade pública maior. E isso acaba favorecendo que as pessoas achem menos estranho ter pessoas diferentes, de pele escura, exercendo funções de comando”.
 
Paixão lembra que os Estados Unidos têm uma história que se inicia com a guerra civil e passa pelo período das leis segregacionistas, o que nunca ocorreu no Brasil. Mesmo assim, os norte-americanos produziram um presidente de evidente origem negra e o Brasil não.
 
Para a deputada federal Benedita da Silva, apesar de o Brasil ainda não eleger muitos negros, outras lutas e representações sociais importantes foram alcançadas nos últimos anos.
 
“Os Estados Unidos já elegeram e reelegeram um negro para a presidência. E o Brasil ainda não conseguiu, mas já elegeu um operário, elegeu uma mulher, penso que estamos avançando, porque são lutas muito importantes também, e a cada dia vemos esses movimentos crescer e serem representados. Creio que daqui a pouco a comunidade negra vai estar em outro patamar”
 
Para a assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) Eliana Graça, o problema é cultural e histórico, envolvendo a disputa do poder.
 
“Os negros não se candidatam não é por que não têm competência, não é bem isso. Primeiro que você tem uma cultura na sociedade que é machista e racista, né, então nós ainda não conseguimos derrubar esse racismo, nós temos uma história de submissão da raça negra, a questão da escravidão, que a gente não superou totalmente”.
 
Eliana considera que houve avanços, mas os próprios partidos políticos não oferecem oportunidades iguais de acesso às candidaturas. Além disso, ela destaca que os negros são a parcela da população que tem menos acesso à renda e a um bom trabalho.
 
“Com essas campanhas milionárias, como é que os negros concorrem, sem ter o financiamento público de campanha? Porque hoje se elege quem tem dinheiro”.
 
A secretária de políticas de ações afirmativas da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Ângela Nascimento, afirma que, se por um lado existe a ideia de que os negros são importantes na vida da sociedade brasileira, por outro eles não são vistos como tendo as mesmas condições dos brancos para ocupar os espaços de decisão.
 
“Se nós somos um Brasil que sempre foi colocado como miscigenado e se há uma participação bastante expressiva da população negra, porque há sub-representação da população negra nessas instâncias [de poder]?”
 
Para Ângela, se todos são iguais, os negros também podem dividir igualmente os espaços de poder. “Considerando que essas desigualdades estão concentradas na população negra, é fundamental que ela seja protagonista dessas mudanças”. De acordo com ela, o Brasil criou o imaginário perverso de que negros são ótimos para trabalhar e incapazes de comandar, algo que precisa ser transformado.
 
Edição: Tereza Barbosa
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

História do tango

O tango nasceu num bairro de descendentes de africanos escravizados na Argentina



Exposição em Buenos Aires revela a “história negra” do tango

Buenos Aires – O tango, de raízes suburbanas, tem também uma “história negra” que se relaciona com os ritmos afroargentinos, um “segredo” que foi resgatado pelo antropólogo Norberto Pablo Círio.
 
“Apesar de sempre existir esse rumor sobre a presença negra no tango, esse assunto nunca foi bem estudado e compreendido”, explica Círio à Agência Efe, promotor da exposição “Historia Negra Del Tango”, que acaba de ser inaugurada em Buenos Aires. O antropólogo decidiu entrar em contato com a comunidade argentina de ascendência africana para saldar essa “dívida histórica e social com um dos grupos fundadores do país”.

Desenho de casal de negros dançando tango. Publicado no periódico “La Ilustración Argentina”, de Buenos Aires, em 1882

Sob o lema que “tudo tem sua história negra, mas desta vez estamos orgulhosos”, o antropólogo organizou uma mostra composta por mais de uma centena de peças que pretendem provar este pioneiro enfoque sobre uma realidade que havia sido vagamente tratada na academia e sempre a partir de uma perspectiva branca, lembra Círio.
 
Partituras, discos e fotografias originais de época e em sua maior parte inéditas cedidas para a ocasião formam o percurso feito nas últimas décadas do século 19 e analisa o candombe, “a música e o baile distintivos e emblemáticos desta comunidade”, e a música de carnaval, que para Círio desenham o contexto no qual nasceu o tango.
 
A exposição aprofunda na presença de afroargentinos nos diferentes períodos do tango como gênero, a partir da figura de Rosendo Mendizabal, “um marco indiscutível” nas origens do tango, opina o especialista.
 
“Joia”
 
A maior “joia” da mostra, instalada no museu Casa Carlos Gardel, é uma partitura original de 1897 de “El Entrerriano”, uma das mais importantes composições de Mendizabal, cuja publicação marcou para Círio a origem da “Guardia Vieja” como período estilístico do tango.
 
A exposição destaca também as figuras do compositor e músico Ruperto Leopoldo Thompson, quem introduziu o chamado estilo “canyengue”, e do pianista e compositor Horacio Salgán, cujo tango “A fuego brando” foi “o germe de todo o movimento estético de Astor Piazzolla e sua escola”, assegura o antropólogo.
 
Outro dos compositores destacados na mostra é Enrique Maciel, cuja valsa “La pulpera de Santa Lúcia”, de 1929, é de acordo com Círio “o hino, a obra emblemática das valsas crioulas”.
 
“Desde a origem do tango até o presente sempre houve músicos, compositores e dançarinos negros”, explica à Efe Horacio Torres, diretor do museu, quem lembra que dois dos seis guitarristas de Gardel eram afroargentinos.
 
Completam a mostra partituras e discos de compositores brancos como Sebastián Piana e músicos como Alberto Castillo, que tratam a partir de diferentes perspectivas a temática da negritude.

Gabino Ezeiza , um dos representantes do Tango Afro Argentino

Consulta inédita
 
Círio considera que o inovador desta proposta é que “nunca antes a comunidade afroargentina tinha sido consultada e estudada, não havia sido dada uma oportunidade, espaço para uma palavra, voz e o voto a esta parte da história”.
 
Para ele, “no melhor dos casos que escreveram a favor desta teoria sempre o fizeram com base unicamente em documentos escritos por brancos, o que tornava a abordagem parcial.
 
“Esta questão foi mal estudada por falta de provas, mas fundamentalmente pela curta visão europeísta, resultante de como pensam os argentinos como nação”, em cuja construção da identidade “se enfatizou um projeto branco europeu e cobriu-se com um manto de esquecimento as outras tradições culturais anteriores, como a negra e a aborígine”, conclui.

Elena Arsuaga
Serviço:
“LA HISTORIA NEGRA DEL TANGO”
Onde: Museu Casa Carlos Gardel (Jean Jaurés, 735, Abasto, Buenos Aires, Argentina)

Compartilhada por Haroldo Oliveira.
https://www.facebook.com/notes/rucangola-ruca/a-historia-negra-do-tango-o-tango-nasceu-num-bairro-de-descendentes-de-escravos-/2145990667183
Fonte:Combate ao Racismo Ambiental / racismoambiental

A ascensão dos negros no Brasil

Rumo a um futuro mais igual

 

 
 
Aos poucos, a população afrodescendente conquista importantes espaços na sociedade brasileira e de outros países. Contudo, muitas distorções precisam ser superadas
 
Se alguém, por um motivo qualquer, tivesse passado os últimos 10 anos dormindo e acordasse no fim de 2012, certamente teria uma surpresa com o destaque dado a personalidades negras no país e no mundo. Essa pessoa veria o rosto de Barack Obama estampado na capa da revista Time, e descobriria que o homem de raízes africanas, eleito personalidade do ano pela publicação, comanda a mais poderosa nação do mundo. No Brasil, ela testemunharia os elogios frequentes feitos nas ruas e nas redes sociais a Joaquim Barbosa, e saberia que um afrodescendente preside hoje a mais alta Corte do país, o Superior Tribunal Federal (STF).
 
Mesmo que Obama e Barbosa possam ser considerados casos excepcionais, suas histórias estão conectadas a um movimento real — ainda que lento — de ascensão dos negros em vários países. Aos poucos, eles deixam de ser importantes apenas nas artes e nos esportes (áreas às quais pareciam limitados pelo preconceito social) e passam a influenciar os destinos da economia, da política e do pensamento mundial. Esse processo dá esperanças de que uma sociedade mais igualitária esteja se formando e, a curto prazo, tem um impacto direto na autoestima dessa população, que passa a não ter mais vergonha de assumir sua origem.
 
No Brasil, esse fenômeno é nítido. “Durante muito tempo, persistiu o absurdo de pessoas com a tez negra ou com os traços afros se declararem como brancas”, afirma Nelson Inocêncio, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), da Universidade de Brasília. “À medida que a situação social melhora, mais pessoas assumem sua identidade”, completa. A fala de Inocêncio é amparada por dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No último censo, de 2010, pela primeira vez na história, o percentual de pessoas que se declararam de cor preta ou parda (50,7%) foi maior do que o de indivíduos que se consideravam brancos (47%).
 
O estudo Dinâmica demográfica da população negra brasileira, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que esse fenômeno pode ser em parte explicado pela maior fecundidade das mulheres negras em relação às brancas. Contudo, ressalta a pesquisa, é fato que houve um aumento do número de pessoas que agora se declaram pardas e que antes preferiam dizer que eram brancas.
 
Desafios
Apesar dos avanços, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Embora 75% das pessoas que ingressaram na classe média nos últimos anos sejam negras, segundo dados da Secretaria de Assuntos
Estratégicos da Presidência da República, essa parcela da população ainda ganha menos, enfrenta maior desemprego e tem menor escolaridade. Ainda segundo o Censo 2010, os rendimentos mensais médios de brancos (R$ 1.538) e amarelos (R$ 1.574) são quase o dobro dos de pretos (R$ 834), pardos (R$ 845) e indígenas (R$ 735).
 
A realidade ainda desigual, reproduzida em maior ou menor escala em diversas outras nações, justifica a decisão das Nações Unidas de declarar os próximos 10 anos a Década das Pessoas com Ascendência Africana. Com a iniciativa, a ONU espera acelerar o processo de construção de uma sociedade mais igualitária e ajudar no reconhecimento internacional da importância do continente africano na constituição do mundo contemporâneo.
 
Para o antropólogo Milton Guran, pesquisador do Laboratório de História Oral e Imagem (Labhoi) da Universidade Federal Fluminense (UFF), a África vem tendo, aos poucos, esse destaque. “A presença da África no mundo, em todos os campos, será cada vez maior. O mundo ocidental não existiria sem a incomensurável contribuição dos africanos, tanto no campo econômico quanto nos planos espirituais e culturais”, afirma. “O reconhecimento da África como protagonista maior da construção do mundo ocidental é um processo irreversível”, completa o professor.
 
História
Assim, a visão eurocêntrica da história, ou seja, contada a partir do ponto de vista europeu, ganha contornos mais diversos, seja fora ou dentro do Brasil. “O país é tão negro quanto indígena e europeu. Como se diz à exaustão, é essa multiplicidade de raízes que faz a nossa força, a nossa singularidade como nação”, afirma Guran. Essa diversidade vem deixando de ser um mero discurso para virar um instrumento de transformação social do Brasil. “Nas últimas décadas, temos assistido a um aumento progressivo da consciência e da ação reivindicatória dos afrodescendentes e dos povos indígenas, com um apoio cada vez mais amplo do conjunto da sociedade, apesar das resistências de setores mais conservadores.”
 
Independentemente da cor da pele ou das origens de seus antepassados, reescrever a história do país e do mundo de maneira mais democrática é um processo que interessa a todos .”A reconstrução de uma memória coletiva — não só dos afrodescendentes diretos, mas de toda a nação — deve induzir toda a sociedade a reavaliar seus valores e preconceitos. Repensar a história da escravidão e das suas consequências é repensar toda a história do Brasil, nossa trajetória como nação”, afirma Guran, que é o representante brasileiro no Comitê Científico Internacional do Projeto Rota do Escravo, da
 
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Hoje, temos uma memória nacional que não se sustenta completamente por subdimensionar ou mesmo deixar de lado a força positiva da contribuição dos africanos e de seus descendentes para a construção do país e da nossa identidade nacional”, completa.
 
Assim, não faz sentido valorizar tantos aspectos ricos da cultura brasileira, como a música, a dança, a culinária, a agricultura e a engenharia sem valorizar aqueles que contribuíram de maneira direta para o desenvolvimento dessas áreas. “Mesmo com toda a violência que foi a escravidão, é inegável que ela produziu uma troca sem precedentes entre os diversos povos envolvidos nesse processo”, afirma Irina Bokova, diretora-geral da Unesco. “Assim, é preciso dar um lugar mais positivo e respeitoso para o continente africano.”
 
O segundo
Barack Obama, que já havia sido escolhido a personalidade do ano pela Time quando foi eleito presidente dos Estados Unidos pela primeira vez, é a segunda pessoa negra a receber essa homenagem nos 86 anos da publicação. A outra foi o ativista americano Martin Luther King Jr., assassinado em 1968.
 
MAX MILIANO MELO, Correio Braziliense
Fonte: http://www.advivo.com.br

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

‘Racismo é perverso’, diz a primeira doutora quilombola do Brasil

Edimara Gonçalves Soares diz que acesso à educação para crianças quilomobolas é repleto de obstáculos,
alguns intransponíveis (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)


A primeira doutora quilombola do Brasil acaba de tirar o título, na área de Educação, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Edimara Gonçalves Soares, professora da rede estadual de ensino, defendeu a tese “Educação escolar quilombola: quando a política pública diferenciada é indiferente” na terça-feira (28). Formada em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, Edimara Soares nasceu e viveu até os 15 anos em uma comunidade quilombola, criada pelos bisavós dela, em Formigueiro, a 68 quilômetros de Santa Maria. A comunidade não tem nome e é formada por aproximadamente 60 famílias, que vivem do que plantam e criam.

 
Sempre crítica à escolarização dos remanescentes de quilombos, que são comunidades mais afastadas criadas por escravos que fugiram dos senhores de engenho, na época do Brasil Colonial, os sentimentos da nova doutora se confundem. “Eu tenho orgulho, sim. Mas é um orgulho que me faz refletir sobre o quanto a desigualdade, o preconceito, o racismo institucional são fenômenos perversos e que não são reconhecidos, dado o mito da democracia racial. Nós vivemos em um país da diversidade racial, que nós somos todos iguais… Só que nessas diversidades, as desigualdades não são reconhecidas, são dissolvidas”, refletiu Edimara Soares.
“A desigualdade, o preconceito, o racismo institucional são fenômenos perversos e que não são reconhecidos, dado o mito da democracia racial”
Para a professora, o título tem valor simbólico e concreto para o grupo que ela pertence. “O fato de escrever uma tese sobre a educação escolar quilombola, a partir de alguém que é quilombola, que é sujeito desta história, tem um significado singular de representação. Não é um estrangeiro dizendo como que é um quilombola, o que ele tem que fazer, como ele deveria ser. Não é o sujeito de fora narrando os nativos. É alguém de dentro do grupo que conta a sua própria trajetória e ao contar essa história, conta também a trajetória de muitos estudantes de muitas pessoas quilombolas”, explicou entusiasmada.
 
Edimara acredita que a dificuldade que ela teve que enfrentar para ter acesso à escola é a mesma vivida pelas atuais crianças que vivem em quilombos. Ela lembrou que precisava acordar às 4h30, caminhava em torno de uma hora até o ponto onde pegava o ônibus.

Ela contou ainda que, em casa, precisava colher bambu e fazer uma fogueira para iluminar livros e cadernos. “A gente não tinha luz elétrica, eu estudava com fogo de chão. Não podia ficar gastando vela ou querosene dos lampiões, porque a gente não tinha também dinheiro para comprar. Toda a trajetória de estudo é marcada por muita luta, muito sacrifício, por muita garra e determinação”. Ela confessou que nas Exatas não ia muito bem e por isso precisava estudar mais. Por outro lado, nas Humanas “era tranquilo”. Foi com a ajuda de uma família de Santa Maria que conseguiu completar o Ensino Médio e ingressar na universidade.
Edimara recordou que foi uma visita do colégio onde estudava à feira de cursos da UFSM que a fez decidir que queria entrar na universidade.  “No segundo ano do Ensino Médio eu tinha um norte. Queria entrar ali”.

Casa onde Edimara Soares nasceu e viveu até os 15 anos, no quilombo "sem nome" em Formigueiro (RS) (Foto: Arquivo pessoal)

Depois de desenvolver uma tese de doutorado, Edimara lamenta ao perceber que os obstáculos são praticamente os mesmos. “A minha história, quanto estudante negra quilombola, é semelhante e, em certas situações, idêntica à história de muitas crianças quilombolas que estão em fase escolar”, afirmou.

Segundo Edimara, as dificuldades são quase intransponíveis. “Às vezes não tem um número significativo [de alunos] para manter a escola, daí esta escola é fechada e essas crianças são enviadas para outro estabelecimento de ensino, distante da comunidade”, exemplificou. Para a professora, isso mostra que as nossas crianças quilombolas, até hoje, não tiveram ainda acesso a educação da forma que lhes é de direito. Ela pontuou ainda que normalmente essas crianças têm um período para estudar, porque chega um momento que deixam de ir ao colégio para trabalhar, para sobreviver.
 
Este e outros acontecimentos da rotina escolar das comunidades quilombolas do estado foram abordados e analisados na tese de Edimara, sob orientação da professora doutora Tânia Maria Baibich.
Ainda que o Paraná tenha sido pioneiro na aplicação de medidas específicas para este público, com o Departamento de Diversidade e o Núcleo de Educação das Relações Etnicorraciais e Afrodescendência (NEREA), ambos da Secretaria Estadual de Educação, a ação foi “inócua a despeito de todo o investimento e esforço que foi feito”.

Isso significa, como explicou a professora, que não se atingiu plenamente os objetivos inerentes à lei federal de 2003 que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Havia também o intuito de que os professores articulassem os conhecimentos tradicionais das comunidades quilombolas com o currículo escolar. “Esse é o princípio fundante da educação escolar quilombola”, destacou.

No estado, existem 42 escolas que atendem comunidades quilombolas, divididas em 11 municípios. Contudo, para que a lei fosse de fato cumprida, de acordo com Edimara, tópicos essenciais não foram considerados.

“Faltou uma articulação, efetiva, com as universidades, com as instituições formadoras. Faltou uma parceria com as comunidades quilombolas e também houve uma ausência de ações pedagógicas, de maneira sistemática e permanente, com os professores, no interior destas escolas. As ações foram pontuais, não foram ações sistemáticas”, explicou.  Para ela também faltaram investimentos em infraestrutura e em aspectos administrativos, inclusive, recursos financeiros. “É a fartura da falta. Faltam muitas coisas na dimensão de infraestrutura”, complementou.

“Ninguém ensina, o que não sabe. (…) somos produtos de uma educação eurocêntrica, de um currículo monocultural”

Edimara reforçou que a universidade não prepara os acadêmicos, futuros professores, para trabalhar questões etnicorraciais e de diversidade. A doutora é clara ao dizer que os docentes não podem ser culpados pela falha na aplicação da proposta da Secretaria de Educação.
“Ninguém ensina, o que não sabe. Eles, nós não tivemos acesso a esses conhecimentos na formação inicial, enquanto professores, porque somos produtos de uma educação eurocêntrica, de um currículo monocultural, e não foram dadas as condições necessárias”.

Para que se vislumbre um cenário mais adequado na educação quilombola, Edimara sugere a resolução das problemáticas identificadas e a necessidade de se reconhecer que existe o racismo. “Eu preciso reconhecer a existência deste fenômeno, criar mecanismo para combatê-lo, porque ele está presente de forma muito contundente nas escolas dentro das comunidades quilombolas e nas escolas fora”, assegurou. Ela cita ainda aumento de verbas para aquisição de material e para formação dos docentes.

“Não é algo que vai ser de hoje para amanhã, demanda todo um esforço, uma vontade política e de investimento financeiro”, destacou.

As ações afirmativas

Edimara se diz favorável à lei sancionada na quarta-feira (29) pela presidente Dilma Rousseff que determina o sistema de cotas sociais nas universidades federais. De acordo com a lei, metade das vagas oferecidas é de ampla concorrência, já a outra metade será reservada por critério de cor, rede de ensino e renda familiar. As universidades terão quatro anos para se adaptarem. Atualmente, não existe cota social em 27 das 59 universidades federais. Além disso, apenas 25 delas possuem reserva de vagas ou sistema de bonificação para estudantes negros, pardos e indígenas.
 
“O fato de eu ser a primeira doutora quilombola do país mostra o quanto nosso país precisa investir no combate às desigualdades sociais. Ainda existe um abismo, principalmente, nas questões relacionadas a educação, ainda que os governos estadual e federal venham investindo em políticas afirmativas e inclusivas”, afirmou.

Edimara acrescentou que esta desigualdade é histórica e acumulada, desde 1888 quando foi abolida a escravidão no Brasil. “A liberdade veio, porém, sem medidas para integrar a população negra, sem que possibilitasse acesso social e educacional”, disse Edimara. Na avaliação dela, as cotas vêm para promover a igualdade de oportunidade.

“O objetivo maior da política afirmativa é combater e, possivelmente, eliminar o lastro de desigualdades sociais. Se tu fores fazer uma radiografia das pessoas que hoje estão nos cursos de mais prestigio na universidade, como Medicina, Arquitetura, Engenharia, Direito, dificilmente tu vais encontrar, na mesma proporção, negros e brancos”, argumentou.


http://g1.globo.com/parana/noticia/2012/09/racismo-e-perverso-diz-primeira-doutora-quilombola-do-brasil.html


sábado, 1 de setembro de 2012

Angola encerra campanha eleitoral com MPLA como favorito


José Eduardo dos Santos, presidente de Angola: praticamente reeleito
 
Luanda – Angola encerra nesta quarta-feira sua campanha para a eleição geral desta sexta-feira, a segunda no país desde o fim da guerra civil, em 2002, com o partido governamental Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) como favorito.
 
O presidente do país, José Eduardo dos Santos, encerrou a campanha do MPLA em um grande evento realizado ao lado do estádio Onze de Novembro, em Angola, no qual defendeu que seu grupo político ”é o partido da verdade, do presente e do futuro”.
 
”Não escondemos as dificuldades que o país vive. Somos realistas e pragmáticos. O MPLA estuda os problemas, identifica os caminhos para resolvê-los e explica ao povo”. disse Santos, que está na presidência angolana desde 1979.
”Existe os que prometem muito. Prometer é fácil, sobretudo quando não se conhece as responsabilidades do Estado”, disse o líder em referência aos partidos opositores.
 
Isaias Samakuva, líder do principal partido da oposição, a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), defendeu eleições transparentes no ato de encerramento da campanha de seu partido, em Huambo.
 
Nesta quinta-feira será realizada uma jornada de reflexão em Angola, por isso qualquer ato de campanha está proibido. Na sexta-feira, 9,7 milhões de angolanos estão convocados para votar e escolher os 220 deputados da Assembleia Nacional. As eleições serão acompanhadas por 88 observadores estrangeiros.
 
Os mais votados da lista do partido vencedor serão nomeados presidente e vice-presidente do país. Há apenas uma década, a ex-colônia portuguesa pôs fim a um conflito armado que durou 27 anos e colocou em campos opostos o MPLA e a Unita.
 
As eleições de sexta-feira serão as terceiras realizadas em Angola desde sua independência, em 1975.
Fonte: – http://feedproxy.google.com/~r/ExameMundo/~3/pmcrbnDdhOc/angola-encerra-campanha-eleitoral-com-mpla-como-favorito