quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sul-africana é nomeada diretora da ONU Mulheres

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, nomeou na última quarta-feira (10) a ex-vice-presidente da África do Sul Phumzile Mlambo-Ngcuka como chefe da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres).

Mlambo-Ngcuka substitui Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e primeira diretora executiva da agência criada em 2010. Bachelet deixou o cargo em março.

A nova diretora executiva foi a primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente da África do Sul, entre 2005 a 2008, e também atuou como ministra de Minas e Energia e vice-ministra do Departamento de Comércio e Indústria do país, entre outros postos de liderança no Governo e na sociedade civil.

Ela estabeleceu a Fundação Umlambo em 2008 para ajudar escolas de áreas pobres da África do Sul e Malauí.

Fonte: ONU

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Estudantes africanos criam sabonete capaz de evitar a malária

 

Uma dupla de estudantes africanos criou um sabonete capaz de repelir o mosquito causador da malária. O produto, feito a base de ervas e ingredientes naturais, já rendeu a Moctar Dembele e Gerard Niyondiko um prêmio de U$ 25.000, em abril deste ano, pela "Global Social Venture Competition", uma competição mundial promovida pela Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Os dois são alunos do Instituto Internacional de Água e Engenharia Ambiental, em Ouagadougou, capital do Burkina Faso, na África. Como informou Niyondiko ao site da CNN, o sabão, apelidado de “Fasoap”, deixa um perfume na pele que repele os mosquitos.

Outro detalhe importante é que a água residual de quem toma banho com o sabonete contem substâncias que impedem o desenvolvimento das larvas de mosquitos. E esse aspecto pode trazer resultados significativos, já que o problema do saneamento na África é uma das causas da proliferação de vetores de malária.

De acordo com Niyondiko, o objetivo é que o produto possa atender a uma parcela significativa da população da África, que não tem acesso aos produtos convencionais industrializados, como cremes e spray, devido aos custos. "Pensamos em um sabonete repelente e larvicida que estará acessível para a maioria da população, uma vez que o sabão é um produto a base de ingredientes regionais", disse Niyondiko ao site.

Por ora, os estudantes ainda estão trabalhando na otimização do produto. A expectativa é que ele chegue ao mercado em 2015.


domingo, 7 de abril de 2013

“Nenhum país passa por mais de 300 anos de escravidão impunemente”

Entrevista com Eduardo de Assis Duarte

Duarte é um dos organizadores da antologia ‘Literatura e Afrodescendência no Brasil’
 
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Eduardo de Assis Duarte é organizador, ao lado de Maria Nazareth Soares Fonseca, de Literatura e Afrodescendência no Brasil (Editora UFMG), antologia em quatro volumes de autores negros brasileiros, finalista do Prêmio Jabuti 2012 de crítica e teoria literária. A obra foi lançada em 2011, teve sua tiragem esgotada e voltará às livrarias em 2013. Duarte abre, nesta segunda-feira (8/10), o 5º Colóquio Internacional Sul de Literatura Comparada, realizado na UFRGS. Ele conversou com a reportagem por telefone, de Minas Gerais.
 
Zero Hora — Em que contexto surgiu, no país, a pesquisa sobre a literatura de autores negros?Eduardo de Assis Duarte — Iniciamos nossa pesquisa em 2001 e só conseguimos publicá-la em 2011. No entanto, houve iniciativas anteriores, na década de 1990 e até na de 80. A partir dos anos 1980, a literatura brasileira busca outros rumos, e a crítica apenas acompanha. Houve, nos últimos 30 anos, uma diversidade de projetos na produção brasileira que aponta para o esgotamento do projeto modernista de 1922 e que persistiu no chamado alto modernismo, do qual são exemplos a poesia de João Cabral, a ficção da Clarice Lispector, do Guimarães Rosa. Hoje, não temos a ideia de uma cara única para a literatura brasileira, como tivemos em boa parte do século 20. O que se nota na contemporaneidade é a preocupação com um vetor, digamos, comunitário, e não mais nacional. São vários segmentos, muitos deles alijados do poder cultural, que buscam formas de expressão. Temos a escrita das mulheres, a escrita afro, a produção cultural do segmento homoafetivo. São projetos pós-nacionais, para além do critério de nação.
 
ZH — Os pesquisadores brasileiros demoraram para se debruçar sobre a literatura de autoria de negros?Duarte — Sim. Há uma questão cultural que remonta a séculos anteriores. Nenhum país passa por mais de 300 anos de escravidão impunemente. Essas cicatrizes ficam, tanto do lado das vítimas quanto do outro lado. Até hoje, dentro da academia, muitos colegas acham que só existe uma literatura: é a literatura brasileira e ponto final. Se é de autoria afro ou feminina, não tem importância para eles. A questão ainda é muito polêmica. O viés da literatura afro não apenas demorou para começar no Brasil, em relação a outros países, como ainda não é consensual. Costumo dizer que a literatura afro-brasileira é um conceito em construção.
 
ZH — Como está organizada a antologia?Duarte — É um trabalho coletivo. Mapeamos o Brasil todo, região por região, estabelecendo parcerias com colaboradores locais. Participaram 61 pesquisadores de 21 universidade brasileiras e sete estrangeiras. Trata-se de uma antologia crítica. Claro que toda antologia é critica, porque você faz uma seleta de autores, mas essa é ainda um pouco mais crítica. Tome como exemplo o poeta gaúcho Oliveira Silveira. Há um artigo, assinado pela professora Zilá Bernd, que fornece informações biográficas; depois, vem uma apresentação da obra dele, a relação de todos os livros que publicou, uma lista de todas as fontes de consulta existentes sobre esse escritor, para que o estudante possa aprofundar sua pesquisa, e apenas ao final surgem os textos de autoria do Oliveira Silveira. Cada escritor é contemplado com esse conjunto de informações antes de o leitor ter acesso aos poemas, contos ou trechos de romances.
 
ZH — Entre os cem escritores que aparecem no livro, quais são os mais surpreendentes?
Duarte 
— Há um escritor do Maranhão, Nascimento Moraes, que tem um romance publicado em 1915, chamado Vencidos e Degenerados. Destoa completamente de tudo que se falaria, no século 20, sobre a escravidão. É um retrato cru e realista. O livro começa no dia 13 de maio de 1888. Mostra cenas do passado escravocrata e do período após a abolição, como a escravidão tenta sobreviver sob a forma de racismo, baixos salários, ausência do negro nas instituições de ensino. A impressão que se tem é que Gilberto Freyre, quando escreveu Casa-Grande & Senzala, em 1933, quis responder ao romance do Nascimento Moraes. Gilberto Freyre coloca uma escravidão quase sem atritos, não fala das revoltas quilombolas.
 
ZH  Outros exemplos?
Duarte 
— Outra descoberta interessante foi o poeta baiano Aloisio Resende, que pouquíssimos conhecem. Sempre ficou restrito ao local onde vivia, Feira de Santana, nos anos 1930. Naquele momento, Jorge de Lima fazia (o poema) Essa Negra Fulô, uma mulher sem-vergonha, repetindo os chavões do tempo da escravidão. Pela primeira vez no século 20, tivemos um poeta, como Aloisio Resende, colocando a mulher negra em um papel de absoluto respeito, inclusive falando das mães de santo.
 
ZH 
Que novas abordagens a pesquisa proporcionou sobre autores consagrados?
Duarte — Ao mesmo tempo em que foram canonizados, estes autores foram embranquecidos. O cânone insiste em dizer que Machado de Assis não falou da questão do negro. Falou, sim. Era sócio de um jornal abolicionista, a Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro. Usou 23 pseudônimos para atacar a escravidão na imprensa. Em sua obra de ficção, não há qualquer linha que fale de raça superior ou inferior. Tive a oportunidade de preparar, em 2007, uma antologia só de textos dele sobre o tema (Machado de Assis Afrodescendente). Deu 300 páginas, para se ter uma ideia. O caso de Cruz e Sousa é outro desvio horrível. Em geral se lê apenas seus dois primeiros livros, Missal e Broquéis. As obras mais estudadas desses autores são justamente aquelas em que a questão do negro não tem tanto destaque.
 
ZH  Qual sua posição no que diz respeito à polêmica sobre Monteiro Lobato?
Duarte 
— Esse assunto está sendo explorado politicamente. Em 2010, às vésperas da eleição presidencial, várias pessoas, intelectuais, apoiadores do candidato que perdeu foram para a imprensa esbravejar que alguns queriam censurar Monteiro Lobato. Agora, próximo das eleições municipais, o assunto volta à baila. Não tenho a menor dúvida de que a obra de Monteiro Lobato possui conteúdos racistas. Ele era racista. Esse é um ponto. Além disso, era um grande escritor. Então, estamos diante de um paradoxo. Não acho que seja motivo para censura. O problema de Lobato é um pouco mais sério porque ele está voltado para as crianças. A solução que eu daria é: tem que ler em sala de aula, sim, e fazer uma discussão.
 
ZH  O preconceito de Monteiro Lobato era produto de seu tempo?
Duarte 
— Isso é uma tentativa de amenizar a questão. Todo pensamento é produto do seu tempo, mas isso não elimina o problema. O texto continua existindo com conteúdos racistas. Dizer que o racismo era moda, na época, é tentar justificar atitudes semelhantes nos dias de hoje. Não era unânime; dizia respeito a um segmento da população, que inclusive se posicionou a favor da Alemanha durante a Guerra. Alguns dizem que era normal, na época, chamar uma personagem de “macaca de carvão”. Não sei se era tão normal. Vejo isso apenas nos livros do Lobato. Não vejo nos livros de Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade.
 
Por Fábio Prikladnicki, no Zero Hora

Técnicos negros têm pouco espaço no futebol brasileiro?

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"Me desculpe, você é preto". Este foi o título de uma matéria recente da revista Placar que fez uma reflexão sobre a quantidade de técnicos negros no futebol brasileiro. O texto trouxe desabafos de treinadores negros, cada vez mais raros no alto escalão do futebol brasileiro, e teve como personagem principal Lula Pereira, ex-técnico do Bahia, e que disse ter ouvido de cartolas a frase que serviu como chamada da reportagem.
 
Pegando o gancho, uma reportagem publicada pelo iBahia Esportes deu continuidade à discussão e entrevistou profissionais atuantes no futebol baiano, desde dirigentes até treinadores.
 
O primeiro a falar foi Paulo Isidoro, ex-meia-atacante da dupla Ba-Vi e atualmente auxiliar técnico do Ypiranga. Avançado no curso de formação de treinadores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o ex-atleta revelou incômodo com a falta de discussão sobre o tema.
 
"Eu esperava tanto que alguém falasse isso comigo, é algo que me incomoda muito. O futebol brasileiro sempre teve vários destaques negros em campo, o nosso símbolo é negro (Pelé), mas fora de campo isso não acontece. Não sei se é preconceito, má qualificação... Acho que é um pouco de cada, acho que se você se qualificar bem, se você buscar aquilo que você quer, acho que você alcança. Mas às vezes é estranho. Olha o Andrade, como é o cara é campeão brasileiro pelo Flamengo, time de repercussão mundial, e depois não consegue trabalho?", destacou ao IBahia Espostes o ex-atleta.
 
Primeiro técnico negro campeão brasileiro, Andrade assumiu o Flamengo de 2009 de forma provisória, mas foi efetivado no cargo e conquistou o hexa nacional pelo clube. Porém, acabou demitido cinco meses depois com 73% de aproveitamento. Após ficar sem emprego durante meses em 2010, desabafou em entrevista à TV Globo. "Uns dizem que é por causa do meu vínculo com o Flamengo e outros falam de preconceito. Não existe treinador negro trabalhando na Série A. Alguns amigos me dizem que não estou trabalhando por causa da minha cor. Mas não quero acreditar nisso", comentou na época. De lá para cá, ele só comandou Brasiliense, Paysandu e Boa Vista-RJ.
"Andrade não foi o escolhido do Flamengo. Foi um acaso, uma solução temporária. Só assim que os técnicos negros têm chance", opinou Lula Pereira à Placar. Ele, que comandou o Bahia em 2003 e 2006, esteve à frente do Rubro-negro carioca em 2002 e está sem clube desde que saiu do Ceará no ano passado. Ao término das Séries A e B do Brasileiro em 2012, por exemplo, apenas um entre os 40 técnicos era negro: Anderson Silva, interino do Ceará no fim de temporada.
 
"Vivemos numa sociedade preconceituosa, de uma falsa democracia. Prega-se um moralismo imenso, mas as atitudes são quase nada. E não seria de se estranhar isso. Acho coincidência demais. A gente carrega isso de goleiros, de que goleiro negro no Brasil não dá. Criou-se uma cultura no Brasil desde o Barbosa (goleiro da Seleção de 1950). Penso que seja realmente uma forma de preconceito. Não é possível que tantos jogadores com qualidade não tenham vingado como técnicos pelo simples fato de serem negros", afirmou à reportagem Janilson Brito, comandante do Juazeiro, segundo melhor time da primeira fase do Baianão 2013.
 
Mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Henrique Sena, que defendeu a dissertação "Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador, 1901 -1924", fez uma análise do ponto de vista histórico. "Há uma desigualdade na qual os negros apenas assumem a posição quase que unicamente como jogadores, enquanto que as elites brancas, que ainda são os que comandam o futebol do ponto de vista institucional (dirigem e presidem clubes, associações e federações), assumem as posições intelectualmente privilegiadas. Vale lembrar que a inexistência de negros dirigindo ou treinando clubes de futebol continua a ser legitimada por resquícios de um racismo científico no qual os negros apenas possuem virtudes físicas e corporais como força, velocidade, enquanto que as habilidades do intelecto eram naturalmente associadas à raça branca".
 
Postado por Instituto Mídia Étnica em 7 abril 2013 às 10:27 - *Com informações do iBahia Esportes

quarta-feira, 27 de março de 2013

Modelos desfilam na Av. Paulista em protesto contra Ronaldo Fraga


Modelos desfilam na Av. Paulista em protesto contra Ronaldo Fraga: estilista usou palha de aço na cabeça de modelos.

Modelos negras desfilam em protesto nesta segunda-feira (25), na Avenida Paulista em São Paulo (SP). O protesto foi organizado pela agência de modelos negros HDA Models, contra o desfile do estilista Ronaldo Fraga no Fashion Week que usou modelos brancas  (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo )

Modelos negras desfilam na Avenida Paulista  (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo )

Modelos desfilaram nesta segunda-feira (25), na Avenida Paulista, em São Paulo, em protesto contra o estilista Ronaldo Fraga. Na semana passada, ele usou perucas e apliques de palha de aço na cabeça de modelos em desfile na São Paulo Fashion Week.
 
Nesta segunda, durante o protesto, as modelos desfilaram na calçada da Avenida Paulista. O evento foi organizado por uma agência de modelos negras.
Elas usaram a palha de aço como tecido para as roupas que usavam. Na cabeça, usaram pedaços de panos coloridos.
 
O grupo contesta as perucas idealizadas por Fraga em parceria com o maquiador Marcos Costa. Elas se tornaram alvo de um debate sobre racismo, que ganhou dimensão nas redes sociais. Em entrevista na ocasião, Fraga disse que sua proposta não foi entendida. “Quando acordei e vem essa acusação de racismo, eu pensei: gente, o que aconteceu, que mundo é esse?”

O estilista negou que tenha ficado frustrado, mas afirma que jamais pensou na associação da palha de aço com a questão racial. O material remete às antenas dos aparelhos de televisão, que antigamente recebiam bolinhas de bombril em suas pontas para melhorar a imagem da transmissão dos jogos de futebol.

Modelos posam para foto em frente ao Masp (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo)
Modelos posam para foto em frente ao Masp (Foto: J. Duran Machfee / Futura Press/ Estadão Conteúdo)
 
 

 

Racismo no Futebol

Balotelli acredita que pouco está sendo feito para acabar com o racismo no futebol  


Mario Balotelli (Reprodução/Site
Mario Balotelli

Desde que voltou à Itália, o atacante do Milan, Mario Balotelli, vê o seu nome envolvido em problemas com questões raciais. E, segundo o próprio jogador, as autoridades responsáveis estão permissivas com os atos ofensivos. A matéria está no site do jornal The Sun desta segunda-feira (25).
 
Os “ultras” da Internazionale, seu ex-clube, fizeram cânticos racistas citando-o em uma partida do campeonato italiano contra o Chievo – houve punição e multa de R$ 34 mil aos neroazzurri. E no clássico entre Milan e Inter deste ano em que o italiano jogou, os interistas também direcionaram ofensas a Super Mario que, incrivelmente, foi multado, pois respondeu aos insultos com um “gesto vulgar” e teve que pagar mais de R$ 22 mil – já a Inter ficou com um prejuízo de R$ 112 mil por causa de sua torcida.
 
“Isso (racismo) me irrita, me deixa nervoso e eu não gosto dessas coisas. Temos feito pouco progresso nesta questão”, desabafou Balotelli.
 
Seu colega de clube, o ganês Kevin-Prince Boateng, foi discriminado racialmente durante uma partida amistosa de pré-temporada do Milan em janeiro passado e deixou o campo. Para Balo, atitudes assim precisam ser vistas pelas autoridades do futebol.
 
“Eu concordo com ele”, respondeu, sobre Boateng ter abandonado a partida. Na época, Mario ainda acertava sua saída do Manchester City para o San Siro.
 
“Para parar o racismo, nós todos precisamos contribuir juntos”, salientou.

Fonte:http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/esporte/2013/03/25/322244-balotelli-acredita-que-pouco-esta-sendo-feito-para-acabar-com-o-racismo-no-futebol

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Apenas um prefeito de capital eleito em 2012 é negro


Akemi Nitahara - Repórter da Agência Brasileira

 Rio de Janeiro – João Alves Filho, do Democratas, é o único negro entre os prefeitos de capital que tomaram posse no dia 1º de janeiro. Ele volta ao cargo em Aracaju (SE), depois de ter sido prefeito da cidade na década de 1970 e governador do estado em duas ocasiões.
 
O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcelo Paixão, coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Sociais (Laeser) do Instituto de Economia (IE) lembra que, no Brasil, poucos negros exercem funções de destaque. Essa mudança de paradigma já ocorreu nos Estados Unidos, que reelegeram um negro para a presidência.
 
“O Barack Obama é produto de uma coisa que mudou nos Estados Unidos, que foi o acesso da população negra aos espaços sociais mais prestigiados. A política eu não diria que foi [a área] mais privilegiada dessa mudança não, mas [isso se observa] no acesso às universidades, a grandes empresas, na mídia, há uma visibilidade pública maior. E isso acaba favorecendo que as pessoas achem menos estranho ter pessoas diferentes, de pele escura, exercendo funções de comando”.
 
Paixão lembra que os Estados Unidos têm uma história que se inicia com a guerra civil e passa pelo período das leis segregacionistas, o que nunca ocorreu no Brasil. Mesmo assim, os norte-americanos produziram um presidente de evidente origem negra e o Brasil não.
 
Para a deputada federal Benedita da Silva, apesar de o Brasil ainda não eleger muitos negros, outras lutas e representações sociais importantes foram alcançadas nos últimos anos.
 
“Os Estados Unidos já elegeram e reelegeram um negro para a presidência. E o Brasil ainda não conseguiu, mas já elegeu um operário, elegeu uma mulher, penso que estamos avançando, porque são lutas muito importantes também, e a cada dia vemos esses movimentos crescer e serem representados. Creio que daqui a pouco a comunidade negra vai estar em outro patamar”
 
Para a assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) Eliana Graça, o problema é cultural e histórico, envolvendo a disputa do poder.
 
“Os negros não se candidatam não é por que não têm competência, não é bem isso. Primeiro que você tem uma cultura na sociedade que é machista e racista, né, então nós ainda não conseguimos derrubar esse racismo, nós temos uma história de submissão da raça negra, a questão da escravidão, que a gente não superou totalmente”.
 
Eliana considera que houve avanços, mas os próprios partidos políticos não oferecem oportunidades iguais de acesso às candidaturas. Além disso, ela destaca que os negros são a parcela da população que tem menos acesso à renda e a um bom trabalho.
 
“Com essas campanhas milionárias, como é que os negros concorrem, sem ter o financiamento público de campanha? Porque hoje se elege quem tem dinheiro”.
 
A secretária de políticas de ações afirmativas da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Ângela Nascimento, afirma que, se por um lado existe a ideia de que os negros são importantes na vida da sociedade brasileira, por outro eles não são vistos como tendo as mesmas condições dos brancos para ocupar os espaços de decisão.
 
“Se nós somos um Brasil que sempre foi colocado como miscigenado e se há uma participação bastante expressiva da população negra, porque há sub-representação da população negra nessas instâncias [de poder]?”
 
Para Ângela, se todos são iguais, os negros também podem dividir igualmente os espaços de poder. “Considerando que essas desigualdades estão concentradas na população negra, é fundamental que ela seja protagonista dessas mudanças”. De acordo com ela, o Brasil criou o imaginário perverso de que negros são ótimos para trabalhar e incapazes de comandar, algo que precisa ser transformado.
 
Edição: Tereza Barbosa
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