sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ministra se compromete a fortalecer sistema de cotas

Em entrevista concedida ao Portal Áfricas, ontem (31), a Ministra Luiza Bairros, 57, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR/PR) comentou sobre suas principais metas agora à frente de cargo executivo no governo federal. A atual ministra ocupava anteriormente cargo titular na Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia (Sepromi), residindo na cidade de Salvador.


Ministra Luiza Bairros - (Fotos: Elói Correia/Agecom)


A ministra Luiza Bairros nasceu no Estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre, é socióloga, e militou no Movimento Negro Unificado (MNU).
Sobre os investimentos do ministério nos Clubes Sociais Negros a ministra destacou a estratégia de ampliar a relação da SEPPIR com a Fundação Cultural Palmares como forma de fortalecer o programa “Clubes Sociais Negros”. A ministra destacou ainda que é necessário aprofundar a relação da SEPPIR com a Fundação Palmares e que vai trabalhar para construir uma relação política a altura das duas instituições.

Confira abaixo entrevista.

Áfricas – Quais as suas principais metas enquanto ministra da Igualdade Racial?
Ministra Luiza Bairros - Este período dos três primeiros meses do ano é um momento importante para delinear os principais rumos da gestão da SEPPIR, estamos agora no final de janeiro terminando o processo de transição. Venho defendendo que a SEPPIR deve pensar três eixos na atual gestão o primeiro diz respeito à sua organização interna, onde é preciso fazer alguns rearranjos do seu funcionamento, tendo em vista as metas do atual governo da presidente Dilma Roussef (PT) que são erradicação da miséria, educação, saúde e segurança pública. O segundo eixo é o da relação da SEPPIR com os demais ministérios e o terceiro é o da relação do nosso ministério com a sociedade civil, que acontece principalmente através do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), já estamos com a proposta da primeira reunião do conselho ser no início do mês de março. Queremos ainda convocar setores do movimento negro organizados que não estejam representados no atual conselho, mas com atuação de referência na sociedade civil, como por exemplo, as redes de profissionais militantes da área de saúde e a Associação Brasileira de Pesquisadores (as) Negros (as) (ABPN).

Áfricas – Qual a posição da senhora frente ao processo de implementação do Estatuto da Igualdade Racial no que diz respeito a política de cotas?
Ministra Luiza Bairros - A relação é de apoio incondicional ao instrumento das cotas, é algo válido para a questão da igualdade racial, são ferramentas que provocam mudanças significativas em nossa realidade. Cada vez mais este instrumento das cotas está sendo legitimado como medida importante para a questão racial no Brasil. Agora os movimentos sociais organizados precisam estar atentos para o processo que está no Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do Partido Democrata (DEM), contrário às cotas, para que não percamos o direito das cotas nas instituições universitárias do país. (O Partido Democratas (DEM) ajuizou ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a utilização de critérios raciais para o acesso em universidades públicas)

Áfricas – Desde 2005 os municípios aderem ao Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial (FIPIR), que por sua vez se constituiu enquanto espaço importante de geração de políticas raciais no campo institucional. Qual a expectativa de investimentos no FIPIR?
Ministra Luiza Bairros - Houve por parte da SEPPIR um grande investimento no inicio da sua existência no FIPIR (Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial), a nossa intenção é de também oferecer investimentos. Pois o que acontece é que existe uma dificuldade das políticas propostas em nível federal conseguirem serem identificadas pelas populações nos municípios. E o FIPIR proporciona isso, possibilita que exista um diálogo entre gestores públicos das esferas federal, estadual e municipal. Iremos ainda consultar o nosso orçamento, para ver se podemos viabilizar a realização de convênios com governos para investir no fortalecimento dos órgãos do Fórum.

Áfricas – Quais serão as políticas da SEPPIR voltadas as mídias alternativas que tem como foco o debate sobre a questão racial?
Ministra Luiza Bairros - Existe uma demanda muito grande e os investimentos a serem realizados dependem do diálogo que iremos efetuar com estes setores da sociedade. Temos uma proposta de criarmos editais específicos, voltados para estas ferramentas de comunicação que contribuem para o aprofundamento de debates importantes no Brasil, esta é uma proposta que está sendo analisada. Considero de maior importância à existência destas mídias alternativas, porque contribuem de modo contrário à veiculação da visão por vezes distorcida da mídia nacional.

Áfricas – Qual a opinião da senhora sobre a polêmica em torno de trechos da obra “Caçada de Pedrinho”, de Monteiro Lobato?
Ministra Luiza Bairros - Em primeiro lugar acho que está questão foi tratada sem profundidade por alguns setores acerca do parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE), pois o parecer foi todo coerente com a política de diretrizes de distribuição de livros didáticos nas escolas. O livro do Monteiro Lobato, por exemplo, já contava com algumas contextualizações, agora acredito que devam ser incluídas contextualizações que comentem sobre o fato de que o livro foi escrito em uma época em que o racismo vigorava no país há muito tempo, e os estudantes precisam ser informados disto. Pretendo neste mês de fevereiro me reunir com o ministro da Educação para gerarmos uma posição de consenso em torno do tema

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Às vésperas do Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, Ban Ki-moon faz apelo para o fim do racismo

Enquanto as Nações Unidas se preparam para celebrar em 2011 o Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, o Secretário-Geral da ONU Ban Ki-moon fez um apelo à comunidade internacional para que o racismo seja definitivamente erradicado. “A comunidade internacional não pode aceitar que grupos inteiros sejam marginalizados por causa da cor de sua pele”, disse em evento realizado hoje (10/12) para o lançamento do Ano, na sede da ONU, em Nova York.

Ban destacou que africanos e afrodescendentes estão entre os povos mais afetados pelo racismo e, muitas vezes, têm negados seus direitos humanos vitais, como o acesso a serviços de saúde e educação de qualidade. O Secretário-Geral lembrou que estes problemas são históricos e condenou o tráfico transatlântico de escravos como uma terrível tragédia, não só pela barbárie, mas também por sua magnitude. “Até hoje, os povos africanos sofrem as consequências destes atos”, acrescentou.

O Ano foi proclamado pela Assembleia Geral em dezembro de 2009, por meio de uma resolução que cita a necessidade do fortalecimento de ações nacionais e da cooperação regional e internacional para assegurar que os povos afrodescendentes desfrutem inteiramente de seus direitos econômico, cultural, social e cultural, assim como aumentar sua integração em todos os aspectos da sociedade e para promover maior conhecimento e respeito por sua herança cultural.

“Como afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ‘todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos’”, disse Ban. “Se quisermos fazer destas palavras uma realidade temos que erradicar o racismo de uma vez por todas. O sucesso do Ano Internacional requer concentração de esforços em todo o Sistema das Nações Unidas e em níveis regionais e internacionais, com o maior engajamento e participação possível.”

Fonte: http://unicrio.org.br/as-vesperas-do-ano-internacional-dos-povos-afrodescendentes-ban-ki-moon-faz-apelo-para-o-fim-do-racismo/(acesso em 04/01/11)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ONU proclama 2011 como Ano Internacional para Afro-Descendentes

Em mensagem à Assembleia-Geral, Ban Ki-moon diz que o evento pretende reforçar o compromisso político para erradicar a discriminação.

As Nações Unidas lançaram, nesta sexta-feira em Nova York, o Ano Internacional para Descendentes de Africanos.

Erradicar a discriminação

Num discurso, o Secretário-Geral, Ban Ki-moon explicou o objetivo do evento, que será marcado em 2011.

Diversidade

Segundo ele, o Ano Internacional tentará fortalecer o compromisso político de erradicar a discriminação a descendentes de africanos. A iniciativa também quer promover o respeito à diversidade e herança culturais.
Numa entrevista à Rádio ONU, de Cabo Verde, antes do lançamento, o historiador guineense Leopoldo Amado, falou sobre a importância de se conhecer as origens africanas ao comentar o trabalho feito com quilombolas no Brasil.

Dimensão

"Esses novos quilombolas têm efetivamente o objetivo primordial de fortalecer linhas de contato. No fundo restituir-se. Restituir linhas de contatos, restituir aquilo que foi de alguma forma quebrada, aquilo que foi de alguma forma confiscada dos africanos, que é a possibilidade de restabelecer a ligação natural entre aqueles que residem em África, que continuam a residir em África e a dimensão diaspórica deste mesmo resgate. A dimensão diaspórica da África é efetivamente larga e grande", disse.
Ban lembrou que pessoas de origem africana estão entre as que mais sofrem com o racismo, além de ter negados seus direitos básicos à saúde de qualidade e educação.

Declaração de Durban

A comunidade internacional já afirmou que o tráfico transatlântico de escravos foi uma tragédia apavorante não apenas por causa das barbáries cometidas, mas pelo desrespeito à humanidade.

O Secretário-Geral finalizou a mensagem sobre o Ano Internacional para os Descendentes de Africanos, lembrando a Declaração de Durban e o Programa de Ação que pede a governos para assegurar a integração total de afro-descedentes em todos os aspectos da sociedade.

FONTE: Site da ONU - Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova Iorque. 10/12/2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

Ensaísta brasileira emociona o Senegal

Ícone da literatura afro-brasileira, a escritora e ensaísta Conceição Evaristo foi uma das convidadas pela Fundação Cultural Palmares para participar da programação cultural do Brasil no III Festival Mundial de Artes Negras, no Senegal. Entre os 60 países convidados, o Brasil é o país homenageado e tem a maior delegação, com 362 personalidades, entre artistas, grupos culturais, intelectuais e cineastas.


Fotos: Elaine Hazin
Conceição Evaristo na Ilha de Gorée, ao lado da estatua que simboliza o fim da escravatura

Com o tema "Da representação à auto-apresentação do negro na literatura brasileira", a escritora integrou a programação de pensadores do Festival sobre a questão da diáspora africana. Em Gorée, Conceição reuniu intelectuais de países africanos. Emocionada afirmou que a experiência trouxe uma sensação "de volta à origem [...]. Não uma origem particular, mas de uma dor coletiva. Essa recordação, como um ato voluntário de resistência, nos faz acreditar que somos fortes e por isso recuperamos a vida".

Conceição Evaristo é Mestre em Literatura Brasileira pela PUC Rio, e Doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Autora dos romances Ponciá Vicêncio, 2003 e Becos da Memória, 2006, Mazza Edições, a escritora lançou em 2008 a antologia Poemas da Recordação e outros Movimentos, Editora Nandyala, obra classificada entre os 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom, no ano de 2009.

Fonte: http://www.palmares.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=3104

III Festival de Artes Negras em Dakar - Senegal



Na origem, o primeiro Festival Mundial das Artes Negras organizado em Abril de 1966 devia finalizar, do ponto de vista do Presidente e poeta Léopold Sédar Senghor, o seu iniciador, a marcha de um século que celebrou com fasto as culturas negras.
Para Senghor como para Césaire, os pais da Negritude, a organização do Festival tinha a ver tanto com a política como com a cultura. Devia servir a reafirmar a nobreza das culturas africanas, a celebrar a sua essência e a sua importância, num contexto em que a África mal acabava de sair da colonização e os Estados – Unidos tinham dificuldade para pôr fim à Segregação racial.

Consoante os princípios gerais do primeiro Festival, tinha como objetivo principal «permitir ao maior número possível de artistas negros, ou de origem negra, fazer-se se conhecer e amar por um auditório tão vasto como possível num clima de tolerância, de estima mútua e desenvolvimento intelectual.»

As delegações africanas afluíram, portanto, com as estrelas da diáspora da época, entre as quais Duke Ellington, Arthur Mitchell e Alvin Ailey (American Negro Dance Company), Mestre Pastrinha (grande capoeirista da Bahia), Marion Williams ou ainda Clementina de Jesus, rainha do samba.

Após Dakar, Lagos acolheu em 1977 o segundo Festival Mundial das Artes Negras. Esta edição inscrevia-se no mesmo espírito de defesa e ilustração das civilizações e culturas negras.

Fonte: http://www.dc.mre.gov.br/festivais-e-concursos/dacar-2013-iii-festival-mundial-de-artes-negras

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Zumbi e o Quilombo dos Palmares

Zumbi dos Palmares, elevado ao panteão dos heróis da nação brasileira, é o símbolo da resistência contra a exploração do homem branco, nunca se deixou dobrar diante das injustiças do sistema escravista. Hoje, Zumbi dos Palmares, é o grande ícone e testemunho de que negros e negras nunca deixaram de lutar, no passado, contra a escravidão e, na atualidade, contra o racismo e a discriminação racial nas diversas organizações do movimento negro por justiça, por direitos e por liberdade.

Zumbi dos Palmares

A grande preocupação de Zumbi ao fugir da opressão escravista, representada na figura do padre Melo, de quem era coroinha, era libertar-se para libertar. Esta é a palavra-chave que pode caracterizar a vida desse grande herói da liberdade e da causa dos afro-brasileiros

Zumbi e outros negros e negras como Ganga Zumba, Aquatume, Dandara construíram no Brasil, na região da Serra da Barriga, no atual Estado de Alagoas, um pedaço da África, o Quilombo dos Palmares, que se constituiu numa sociedade totalmente diferente da dos brancos proprietários de terras e escravocratas. Nesta nova sociedade, a terra era da coletividade e tudo o que era nela produzido era dividido entre todos. O trabalho era feito por todos, no sistema de mutirão, bem na forma tradicional africana. Palmares constituía uma nova sociedade com uma variedade de culturas agrícolas, onde a produção visava o consumo interno e em alguns momentos a produção excedente era comercializada com as cidades vizinhas. Na sociedade palmarina, governada inicialmente por Ganga Zumba e depois por Zumbi não havia divisão de classes (como era a sociedade colonial dos brancos), nem desníveis sociais, embora houvesse privilégios concedidos aos chefes militares e políticos. O quilombo dos Palmares e os diversos quilombos que existiram em praticamente todos os Estados brasileiros, representavam a única possibilidade, fora da morte, para fugir da escravidão e a tentativa de estabelecer uma comunidade negra, autônoma e livre. O Quilombo dos Palmares era, portanto, um lugar de liberdade, felicidade e justiça.

A ousadia dos negros em Palmares incomodou tanto as autoridades portuguesas da época, que ele foi destruído pelo bandeirante e capitão-do-mato Domingos Jorge Velho, que assassinou Zumbi em 20 de novembro de 1695 e capturou outros negros, fazendo-os retornar à escravidão.

Localização do Quilombo dos Palmares

Mesmo com a destruição de Palmares, a morte de Zumbi e a repressão aos diversos quilombos espalhados pelo Brasil colonial, os negros não deixaram de fugir, lutar e se organizarem pela contra a escravidão e a opressão. Os quilombos foram importantes na luta contra a escravidão, tendo se torna num elemento dos mais importantes no desgaste permanente, quer social, econômico e militar, no processo de substituição do trabalho escravo pelo assalariado e no próprio processo de abolição da escravidão.

• Para as autoridades portuguesa quilombo era “toda habitação de negros fugidos que passam de cinco, em parte despovoada ainda que não tenham ranchos levantados, nem se achem pilões neles”. (02 de dezembro de 1740)
• A palavra Kilombo, do verbo kulomboloka, na língua Kibundo de Angola, significa dispersar-se, fugir a procura de um refúgio sobre a proteção de alguém; o seu plural é ilombo.
• O Quilombo (Kilombo) seria uma espécie de zona franca, de território livre que o escravo fugitivo construía e governava segundo as tradições ancestrais africanas.
• Pode-se verificar a presença dos quilombos em diversas regiões da América: os bush Negrões (Suriname), os Palemques (Guatemala, Peru, Colômbia).

História do Dia Nacional da Consciência Negra

Uma história de subversivos que não se imaginavam como tal

Eles fugiam de complicações com autoridades. Ainda assim, desbancaram o 13 de maio.

Em São Paulo, no Rio e em outras 222 cidades do País comemora-se amanhã o Dia da Consciência Negra. É um feriado recente do ponto de vista oficial e de significado desconhecido para a maioria das pessoas. A história não oficial, porém, é longa e recheada de surpresas. Uma delas é que o berço do feriado que desbancou o dia 13 de Maio foi o Rio Grande do Sul - Estado quase sempre apresentado como terra de gente branca e loira, descendente de alemães e italianos. Outra surpresa: trata-se de uma história de subversivos que não se imaginavam subversivos e que agiam em plena ditadura militar


O ano de 1971, marco zero do Dia da Consciência Negra, foi um dos mais pesados dos anos de chumbo. O general Emilio Garrastazu Médici, por acaso um gaúcho, mandava e desmandava no País e o tempo andava tão fechado que, ao saber que em Porto Alegre um grupo de negros se reunia para discutir a história de Zumbi dos Palmares, o serviço de inteligência do Exército mandou ver o que era. Quis saber se tinha ligação com a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, ou VAR-Palmares, movimento guerrilheiro que acabou desmantelado naquele ano.

Foram os tais negros - que não tinham nada a ver com a organização clandestina e fugiam de complicações com as autoridades - os idealizadores do feriado de amanhã. Não chegavam a uma dúzia, entre universitários e jovens recém-formados, e se reuniam na Rua da Praia, oficialmente Rua dos Andradas, na época festejada área de circulação de negros, no centro de Porto Alegre.
Paravam diante do prédio da Casa Masson, revendedora de jóias e relógios, hoje ocupado por uma filial das Casas Bahia, e lá ficavam, trocando figurinhas sobre namoros, filmes, clubes de futebol e política. Um dos mais assíduos e animados era o poeta e professor Oliveira Ferreira da Silveira.
Ele conta que, apesar da sombra da ditadura, o debate sobre as grandes questões nacionais fervia e refervia. Foi por aqueles anos, um pouco mais à frente ou para trás, que ele ouviu, em debates na PUC de Porto Alegre, as vozes de personalidades como o pensador católico Alceu Amoroso Lima e os sociólogos Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Florestan Fernandes.

Oliveira fala baixo e pausado e, fora os cabelos brancos, não aparenta a idade de 65 anos. Dono de memória admirável, dessas que permitem ao dono derramar versos e versos no meio de uma conversa, dos mais diferentes autores negros, do cubano Nicolás Guillén ao brasileiro Solano Trindade, sem esforço nenhum, como se fosse uma respirada mais longa, ele guarda com riqueza de detalhes os fatos da época. Recorda que às vésperas do Dia da Abolição, o 13 de Maio de 1971, o grupo enveredou para uma discussão animadíssima sobre o significado daquela data. Ou falta de significado, pois ali era unânime que os negros não tinham o que comemorar. Afinal, eram vítimas de discriminação em qualquer lugar do País.

O mais exaltado era Jorge Antonio dos Santos, o Jorge de Xangô, que fazia teatro e era uma espécie de animador cultural na comunidade negra. Mas os outros não ficavam atrás. Dois anos antes, Silveira escrevera um poema, depois publicado em livro, no qual dizia: "13 de maio traição/ liberdade sem asas/ e fome sem pão."

Na semana passada, conversando com o repórter nas imediações da Rua dos Andradas, entre as passagens suspensas e os arcos do grandioso Hotel Majestic, hoje transformado no Centro Cultural Mário Quintana, numa homenagem ao poeta que lá viveu durante anos, o professor explicou: "Nós negros éramos instados a comemorar o 13 de Maio como nossa grande data. Mas não havia motivo para comemorar. A Lei Áurea aboliu a escravidão, mas não adotou providências para absorver socialmente a grande massa de escravos. Não se fez nenhum movimento para dar terras a essa população. Pelo contrário, eles foram buscar mais migrantes europeus, num esforço de embranquecimento do País."

E então criou-se a dúvida: se não era 13 de Maio, o que seria? Na discussão alguém apareceu com um fascículo da série Grandes Personagens da Nossa História, lançada no final dos anos 60 pela Abril Cultural.

Era o fascículo sobre Zumbi, líder dos quilombos de Palmares e símbolo maior da resistência negra ao escravismo. Lá estava registrado que o assassinato do guerreiro ocorrera no dia 20 de novembro de 1695, em meio ao ataque da última das expedições enviadas para aniquilar o reduto negro formado por quase dez quilombos, na então capitania de Pernambuco.

Foi o estopim. E se fosse comemorado o 20 novembro? Se, em vez da bondosa princesa, o negro insurgente?

O grupo saiu à caça de livros históricos para reunir mais informações sobre o episódio e, principalmente, confirmar se a data da morte estava correta. Uma fonte valorosa foi um livro que Silveira mantém até hoje em sua estante: As Guerras nos Palmares - Dados Sobre a Campanha - Domingos Jorge Velho e a Tróia Negra. Escrito por Ernesto Ennes e publicado na década de 30, era uma obra rica em documentos oficiais, que confirmaram o 20 de novembro. A ironia é que o objetivo de Ennes não foi o de ajudar os negros, mas exaltar os bandeirantes que comandaram as expedições de extermínio.

Entusiasmada com seus achados, a rapaziada decidiu formar um grupo de estudos. Silveira estava entre os quatro que toparam a empreitada. Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização na língua francesa, ele dava aulas em escolas da rede pública e achava que estava em falta com a militância do movimento negro desde a leitura, anos antes, do livro Reflexões Sobre o Racismo, de Jean Paul Sartre. "Eu estava atrasado", conta o professor, cujo pai era branco e uruguaio e a mãe, negra e nascida numa comunidade rural de Rosário do Sul, no centro-oeste do Estado.

O segundo integrante do grupo de estudos era Antônio Carlos Cortes, estudante de Direito que ouvira muito sobre racismo em casa por causa do pai, que, embora tivesse boa formação educacional e falasse inglês, nunca conseguiu ir além do cargo de contínuo numa repartição pública. Ainda faziam parte do grupo Ilmo Silva, estudante de Economia, que cursara o ginásio numa escola particular onde era o único negro; e Vilmar Nunes, estudante de Administração e funcionário público.

Em 20 de julho de 1971 os quatro oficializaram a formação do Grupo Palmares e acertaram a realização de três atividades públicas. As duas primeiras foram homenagens a Luiz Gama e José do Patrocínio, negros e precursores da luta abolicionista.

A terceira e mais importante foi programada para 20 de novembro. Seria no Clube Náutico Marcílio Dias - que não tinha nada de náutico, mas era um dos mais animados dos quase dez clubes de negros que funcionavam em Porto Alegre.

Alguns desses clubes tinham se constituído como grupos de ajuda. Entre outras coisas providenciavam enterros dignos para os mais pobres. Outros eram clubes sociais, para bailes e blocos carnavalescos, necessários numa cidade onde os clubes de brancos recusavam pessoas de pele negra.
No fundo, eram espaços de resistência contra a discriminação. O mais antigo, o Sociedade Beneficente e Cultural Floresta Aurora, criado em 1872, antes da Lei Áurea, funciona até hoje.

E aqui vale um parêntese para dizer que a importância desses clubes no Estado já foi tão grande que a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) decidiu escolhê-lo para abrigar o 1.º Encontro Nacional de Clubes Negros, previsto para o próximo fim de semana em Santa Maria, no centro do Estado.

Voltando a 1971: dias antes do encontro do 20 de novembro, um jornal porto-alegrense anunciou que seria uma homenagem dos "negros do teatro" a Zumbi. Não deu outra: no dia seguinte, um agente da Polícia Federal bateu no clube e advertiu que, se fosse teatro, era preciso submeter o texto à censura prévia.

"Para não causar complicação, escrevemos um roteiro da apresentação que faríamos sobre Zumbi e levamos até a PF", conta Silveira. "Leram, aprovaram e aplicaram o carimbo, sem o qual não se podia fazer nenhuma exibição. Guardo a página carimbada até hoje."

Receoso, o grupo adotou o mesmo procedimento em todos os eventos que promoveu a partir dali: escrevia o roteiro e saía atrás do carimbo da PF. "O agente encarregado me recebia bem, com simpatia. Até nos cumprimentávamos na rua."

Na data marcada, um sábado à noite, apareceram 12 pessoas, somando aí os integrantes do Palmares. Ficaram reunidas durante duas horas no Náutico, que funcionava numa casa já demolida, na Avenida Praia de Belas, quase esquina com a José de Alencar. A maior parte do tempo foi tomada com uma apresentação sobre Zumbi e sua importância para o movimento negro. Foi um sucesso.

Ao fundo, sem se juntar ao grupo, um senhor branco assistiu em silêncio. Ao final foi se apresentar. Era o historiador gaúcho Décio Freitas, respeitado estudioso de insurgências populares, que se exilara no Uruguai após o golpe de 1964.

Recém-chegado do exílio e ainda temeroso de aparecer em público, ele fora até o Náutico para presentear o grupo com um livro que acabara de lançar em Montevidéu. Chamava-se La Guerrilla Negra e tinha Zumbi como tema.

No ano seguinte, o grupo, engrossado por novos associados, fez nova comemoração no 20 de novembro. Dessa vez ganhou um empurrão da Revista Zero Hora, que publicou um encarte de sete páginas chamando a atenção para a questão negra.

Em 1973, a programação foi mais extensa, com show musical, exposição de obras de artistas plásticos negros e uma palestra de Décio Freitas.

Aos poucos os eventos gaúchos atraíram a atenção da mídia nacional e de grupos negros de outros Estados, que também passaram a adotar o 20 de novembro. Finalmente, em 1978, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial adotou a data, batizando-a de Dia Nacional da Consciência Negra. Mais recentemente os poderes públicos abraçaram a idéia, dando origem ao feriado de amanhã, celebrado principalmente em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso. [...]

Publicado no O Estado de S.Paulo, Caderno Aliás, 19/11/06, pelo jornalista Roldão Arruda. Não incluímos aqui a parte final do texto.
* O professor e poeta Oliveira Silveira faleceu no dia 1/1/2009 na cidade Porto Alegre.